17/09/2023
Mais ou menos 6 anos depois, aqui estou eu de volta. Tentando resgatar a escritora que morre dentro de mim dia a dia, consumida e esmagada pela rotina avassaladora.
Nesses últimos 6 anos tantas coisas aconteceram, a vida de todo mundo mudou completamente. E sim, sou exagerada, mas desta vez não é exagero. Em 2020 tivemos uma pandemia, do vírus que ficou conhecido como COVID-19, e as pessoas no mundo inteiro precisaram ficar de quarentena em suas residências durante quase 2 anos. Milhões de pessoas morreram por conta do vírus, inclusive o meu pai, que morreu em Maio de 2021. A perda foi super difícil para Pedro, porque ele era muito ligado ao avô. Foi difícil para Rafael também, porque nos últimos anos antes de meu pai morrer eles tinham criado um vínculo de pai e filho, e acabou que Rafa ficou órfão de pai de novo. Claro que para mim foi imensa a perda, não só por conta das responsabilidades que a acompanharam (cuidar de velório, enterro, seguro de vida, devolução de carro alugado e mais umas 1987189613 coisas) mas principalmente por conta da minha relação com meu pai, que nunca foi muito estável. Nós éramos muito parecidos em alguns aspectos, porém com visões de mundo muito diferentes e é inevitável não reavaliar toda a nossa história na hora de me despedir, com aquela sensação latente de culpa.
Vou contar brevemente como foram meus últimos contatos com meu pai. Talvez escrever sobre isso alivie a dor que essas memórias me causam.
Meu pai ficou com sintomas de gripe. A esta altura já havíamos passado por 1 ano de COVID-19 e aos poucos estávamos retomando alguns aspectos das rotinas. Eu, por exemplo, havia voltado a trabalhar. Minha mãe também ficou doente, então eu fui até a casa deles levar alguns suprimentos. Meu pai, que estava com sintomas mais avançados, estava se auto-isolando no andar de cima, então nos vimos pouco. Como ele sempre foi meio exagerado com relação a doenças eu achei que talvez fosse só uma gripe forte e que logo iria passar. Lembro de estar sentada na cozinha, Pedro brincando sentado aos meus pés, e minha mãe um pouco mais afastada, conversando sobre as coisas que ela precisava que eu fizesse. Meu pai desceu e veio até a cozinha, na intenção de nos falar alguma informação que ele achava essencial passar mas que eu não consigo mais lembrar de jeito nenhum. Pedro ficou muito feliz em ver o avô e levantou correndo para abraçá-lo "vovozinho!!". Meu pai recuou e disse "ô Pedrinho, vovô tá doente, não pode abraçar. Se vovô conseguir sair dessa vovô promete que vai te encher de abraço". Pedro ficou triste, mas depois de ter passado 1 ano lidando com as restrições trazidas pelo COVID não foi nada que ele já não soubesse. Na hora eu pensei que aquela forma do meu pai de se posicionar era muito fatalista, porque ele falava como se houvesse possibilidade dele morrer, enquanto eu tinha certeza absoluta de que ele iria se recuperar plenamente e estaria conosco na semana seguinte enquanto faríamos chacota do seu "se". Bem, sabe aquela música do Bee Gees? I started a joke...the joke was on me. Aquela foi a última vez que Pedro viu o avô e uma parte de mim sempre vai se arrepender de não ter forçado eles a se abraçar. Poucos dias depois o meu pai piorou muito, então eu falei com ele por telefone para procurar ajuda médica novamente. Me ofereci para ir buscá-lo e levá-lo num gripário para receber atendimento. Um amigo da família que morava mais perto se ofereceu e levou ele. Na mesma noite ele foi internado e foi solicitada a regulação para um hospital, que tivesse mais condições de acolher ele. Enquanto não saía a regulação a unidade de saúde estava sem lençóis e pediram que a família levasse. Obviamente me ofereci pra ir, já que minha mãe não dirige nem Gabriela. E foi a provisão divina para que eu pudesse ver meu pai pela última vez. Levei um cobertor de edredom pra ele passar a noite fria e levei também meias pros pés dele, que eu mesma calcei. Quando cheguei na unidade a recepcionista me mandou entrar até o posto de enfermagem para entregar as coisas. Deus teve pena de mim e fez todas as enfermeiras saírem de vez, então o posto estava vazio e eu fui entrando mais, achando que seria no próximo posto. Foi então que eu vi meu pai deitado e nós conversamos um pouco, fizemos piada do tamanho das unhas do pé dele e rimos juntos. As enfermeiras chegaram e falaram que eu não podia estar ali. E eu me despedi do meu pai. Eu não sabia que era pra sempre, mas foi. Assim, rindo, como sempre fazíamos com nossas piadas internas de nerd que ninguém achava graça nunca. Quando ele foi entubado e o hospital ligou para que a família se despedisse eu estava justamente à caminho do hospital para levar roupas e outras provisões que acabaram voltando comigo porque os entubados ficavam na UTI, então eu não participei da chamada de vídeo. Aquela noite no gripário foi realmente a última vez que eu vi meu pai (vivo).
Coube a mim a tarefa de reconhecer o corpo dele. Num container resfriado instalado no estacionamento, que era onde os corpos estavam sendo alocados por falta de espaço no necrotério do hospital. Então foi somente minha a dor de ver pela última vez a cicatriz de queimadura na mão que ele tinha desde que eu me entendo por gente, de ver a marquinha da aliança que ele nunca tirava do dedo, de olhar naqueles olhos arregalados, azuis devido ao congelamento, e confirmar que o meu pai não estava mais conosco.
Por fim ele foi lacrado em alguns sacos que devem ter um nome específico mas eu não sei. Colocado num caixão, vestido só com os sacos mesmo. E cremado.
Peço perdão aos leitores, se é que tenho algum, pelas memórias funestas. Mas quando abri esse blog tinha decidido usar para falar abertamente sobre tudo. Expurgar aqui as minhas dores e quem sabe permitir que as memórias fiquem inócuas, incapazes de me machucar mais.
O COVID ainda não acabou, mas agora é significativamente menos letal e as pessoas estão, aos poucos, retomando o rumo de suas vidas, juntando os caquinhos como lhes foi possível. Eu também tenho tentado me recompor de tantas perdas sucessivas e não consigo parar de pensar que se eu, no alto da minha adultice, tenho dificuldade de lidar com algumas, imagina Pedro, com seus 6 anos de vida. Preciso focar na parte positiva do viver, por mim e por ele, para estar bem o suficiente para ajudá-lo nesses percalços.
Afinal de contas, do pó viemos, ao pó voltaremos.
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